domingo, 6 de março de 2016

Curare.

A dor - sabia o faquir - vinha de um ponto único, um espinho cravado no entorno da alma. Não de todas as desgraças literalmente juntas, como os pregos da sua cama.

Ali, reunidos, eles não eram nada. É preciso certa dose de calmaria despretensiosa e de coragem ruminada para sentir dor. O faquir não saberia doar-se a um único machucado, por isso tinha a vida que podia suportar. Passava seus dias sob a sombra resistente da resignação. Não ousasse ele ter um amor. Um sonho. Ou deixar-se seduzir por qualquer expectativa específica. E o fogo não o queimaria. Nem jamais lhe perturbaria o cravar das lanças.

Na rua, a viver do que sobejava dos bolsos dos passantes, o homem que lambia espadas subvertia a nevralgia a um ponto ao qual os corações doloridos que desavisadamente o encontravam desajariam ardentemente alcançar. Mas isso antes de desesquecerem em cada lágrima a réstia indelével do amar...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Poema de Halloween.

 Aqui jaz uma poetisa descalça de um pé, procurando o outro sapato.   Atrasada até para passar o café, tem no encalço uma pequena filha cont...