domingo, 11 de janeiro de 2015

Status quo ante.


O mendigo que mora perto da minha casa revira o lixo. Ele tem fome. Acho estranho escutar a sua fala. A droga muda um tanto e outro da voz, até deformar o inteiro. Ele mistura alucinações com realidade em seus relatos, sempre cheios de muito rancor.

O mendigo que mora perto da minha casa se junta com o mendigo que vigia carros na calçada do meu trabalho. E com o mendigo que pede nos sinais de trânsito da avenida que se cruza com a que sobe para o Morro da Esperança de todo dia. São prováveis rivais entre si.

Juntos, eles reviram a minha alma.

Ela mistura ilusão e realidade, com pensamentos tão cheios de pavor. Eles andam sempre com facas. Eu tenho medo dos bandidos. Os mendigos sentem fome. Os bandidos extorquem dinheiro. Os mendigos podem ser bandidos também.

Embriagados por uma dose e outra de droga, a que vem de dentro. Pobres de tudo. Tanto eles quanto o meu espírito – quando, por covardia, esquecer, um instante apenas, que ali e aqui bate um coração.

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