terça-feira, 24 de novembro de 2015

Cadeira de espaguete.

Era de tardinha, e a mulher levava a cadeira para a calçada, movimentando a rua, para ver as coisas que queria ver. À volta, vizinhos faziam o mesmo. O sol pintava-se de cores cada vez mais escuras. Em breve, seria breu. E o que mais haveria seriam estrelas de luz ensandecida a persuadir os tolos a trocarem sonhos por ilusões. E quantas promessas descabidas os faria jurar, as quais somente a sensatez da alvorada poderia desfazer.

O movimento era igual. Mas, para a mulher, a cada dia os olhos viam algo diferente. Às vezes, reparava apenas nos casais enamorados. Em outras, nas pessoas fartas de idade a reclamar as dores de mais um dia ainda. Tinha dias em que lhe fascinava simplesmente ver aquilo que o vento carregasse, com poeira e barro, imaginando de onde viria e para onde iria, na levada quente que nos assanhará a todos. Ou então atentar para os cachorrinhos da rua. Tão desamparados e sorridentes como o fundinho da alma. Uma vez, secretamente espionou outras mulheres sentadas na calçada, como ela própria. Foi um assombro enxergar-se tão literal. Nesse dia, ela recolheu a cadeira mais cedo.

Com o ar da noitinha, da jantinha e do café, enchia-lhe o peito a certeza de que é bom ser casa. Calçada por onde alguém possa entrar, sair, sentar e ser. Ainda que às vezes, quando, no ato final, as cores fugiam do céu por completo - deixando-o entregue aos deslumbres de um brilho sem luz - um abandono absurdo a deixasse com o juízo abarrotado da solidão mais ampla.

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