segunda-feira, 1 de junho de 2015

Pedreiro.

Então, ele fechou os olhos e seguiu. Sem jamais olhar para trás. Até porque quem o guiava dizia ser a hora. E ele não saberia, por si só, o caminho, se acovardasse. Além do mais, odiava hospital, cheiro de UTI, odiava aparadeiras e fraldas geriátricas. E as picadas, e os soros, e aquela falta de ar e sol.

Não seria triste pensar na vida inteira que havia sido. Errou e acertou. Conseguiu a graça de construir um saldo feliz, um mundo para filhos, netos, bisnetos. E um bom nome para carregarem. O prenderiam as pontas soltas e miúdas por continuar, as atas e mangas do quintal, a liberdade que os anos emprestam aos velhos para falarem o que bem entenderem. E tanto mais os filhos haveriam de escutar, e os genros, e as noras. E tantas teimas a senhora haveria de suportar. Sobretudo, pela senhora. Por ela, não seria prudente espiar por trás um segundo sequer. Um só pensamento poderia magnetizá-lo de volta. Para o mundo dos que não morrem nem vivem. Pois o certo é que sua vida fora esvaída do aqui...

E levada para além do tempo, onde somente os corajosos e fiéis podem chegar. Não existe choro nem lágrima na morada eterna. Construíra um chão para tanta gente nessa terra que era preciso oferecer seus préstimos também ao Autor do mundo. Desmediria-lhe a alegria de ajudá-lo na obras da mansão celeste - uma em que coubessem todos os de coração puro - projetada por Deus desde sempre.

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