O doce no pote em cima da geladeira pertencia a quem o amava por direito: a pequena garotinha. Por ele, ela comia toda a salada. E engolia o choro depois da briga com o irmãozinho. Esperando impacientemente os braços da mãe ou do pai para alcançar a distância que ela mesma não conseguiria transpor. O doce em seu sangue era a corrida feliz, o néctar que alimentava sua sede de aventuras travessas. Como a de empilhar cadeiras para se agigantar. E quem sabe arrancar o tal pote lá de cima.
Como de costume, o irmãozinho passou de inimigo contumaz a fiel escudeiro da garotinha. Sentado à porta da cozinha, para evitar o flagra de um tal ato de bravura e independência da irmã. O doce pertencia às crianças. Era o que a menina repetia a si mesma. Não haveria mal algum em tomar para si o que se tem.
Exceto porque o que temos de nosso são apenasmente as escolhas que fazemos e o que delas nos advém. E digo isso no exato momento em que menina e doce se estatelam no chão. As formigas e moscas comeram tudo, no final. Além da lixeira - mas essa come até casca de ovo e lata de sardinha. O choro da garotinha, os cacos de vidro, o grito do irmão, a bronca da mãe e do pai foram uma confusão só, que eu prefiro nem contar.
Mas o certo é que, com o tempo, a garotinha cresceu e conseguiu alcançar aquele e outros tantos potes da cozinha. E descobriu que sempre é possível haver um outro pote mais alto ainda, não importa o quanto se cresça. E que não tem escada que suba mais alto no mundo do que toda a coragem cristalizada num coração que aprendeu a fazer calda e merengue de paciência.
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