terça-feira, 11 de setembro de 2018

Ópio e criptonita.

Ele só queria uma namorada, como tantos outros rapazes da turma e de tantas outras turmas de tantas gerações de antes e do porvir. Mudar o status nas redes sociais. Dar a ela o carinho mais puro e dividir umas tantas impressões inconfessáveis com que a vida o afligia. Seria mais divertido - e bonito - o caminho, tendo ele por quem zelar.

E ela era linda. Não a mais bela, é verdade, embora, com o tempo, ele viesse a achar que sim. Nem a mais simpática. Na verdade, às vezes ela seguia umas linhas de pensamento meio truncadas, o que afastava um punhado de gente literal de perto, mas ele estranhamente seguia-lhe as aventuras imaginárias.

Atento. A fim de retirar dos dedos dela qualquer flepa das topadas com que a vida a sacudisse. De enchê-la de não-sei-quê presentes, de todo o mimo que conseguisse apanhar, para renovar-lhe as forças. De deixa-la quietinha e segura, num cantinho bem perto de si.

Mas a moça era por demais confiante e falha para não se atabalhoar a toda hora em rapéis e saltos em corda bamba, ao bel prazer de sonhadoras ambições. Por tanto que ele insistisse em trazê-la de volta para o abrigo paralisante do possível, ela cria ter asas e insistia em voar, caindo de alturas cada vez maiores, trazendo consigo um roto e cada vez mais inteiro coração.

Que ele tratava com esparadrapos, por não cuidar ser o caso de engessar. Ao passo em que ela sempre dizia achar que da próxima vez lograria enfim algum inatingível intento.

Triste, o homem resolveu-se a ser super-herói, para a guardar fosse qual fosse o tombo. Mas, em meio a seus esforços, passou a ser difícil até mesmo sair da cama. A mulher, portando paraquedas, cantil de água e rádio portátil, veio pedir-lhe um abraço antes de mais um salto.

Então, ele virou a cara e dormiu.

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