quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Amanhã.

A menina viva catando aqui e ali. Malinando por entre os móveis. Procurando escondida por entre as coisas da mãe. Até que um dia encontrou: um sonho.

A menina e o sonho passaram, então, a estar juntos por todo o dia a brincar. Ela subia nas árvores do quintal e o sonho então lhe mostrava aonde mais poderiam ir, e mais o que haveriam de fazer.

Se ia à praia, eram dois a caminhar por entre coqueiros, e que coisas malucas planejavam comer, e alimentavam a alma fazendo castelos de areia no mar horizontal...

Naqueles dias, ela corria quilômetros, mas não pensava em perder peso. Lia livros, mas só porque gostava de ouvir histórias. Não guardava nem rugas nem disfarces, e gastava o seu tempo o mais perdulariamente possível, sem jamais se preocupar com isso de transcrever para a vida real as coisas que no peito ardem. Em tranquilo devaneio.

Até o dia em que alguém lhe perguntou se tinha um sonho. Desprevenida, respondeu que sim. Foi quando o sibilar venenoso do sorrisinho entredentes vindo da alheia boca a fez questionar os caminhos de si e do que almejava. Porque percebeu que lhe faltava o chão, foi caindo e se esbarrando em declives. Justo ela, que sempre voava tão alto.

Segurava-se, desde então, num galhinho por sobre o abismo. Quanto mais se esvaía a força nos braços e dedos, que já sangravam, mais implorava aos céus por socorro, por asas, ou por um gigante pé-de-feijão. Temia esborrachar-se e perder o encanto da vida.

Abaixo, aguardava-lhe a santa e nunca ansiosa sabedoria dos anos, com um espelho inoculador através do qual toda criança um dia enxerga em si um adulto. Refletida nele, a mulher descobriria a mágica de projetar e construir calculadas pipas. Com elas, aprenderia que a receita para superar alegrias é agregar valor às matérias palpáveis e comunzinhas franqueadas a toda gente: mesmo os talinhos, os barbantes e os papéis coloridos. Plantando no chão de terra essas mesmas coisas, a senhora colheria ainda multiplicados juros do riso de quem quem depois viesse.

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